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quarta-feira, 11 de junho de 2008

A grande família migrante é a grande família de Deus

Diferentemente da maioria dos brasileiros, vim para esse país longínquo em busca de conhecimento e experiência profissional. Fiz o curso superior e mestrado no Brasil, prestei uma prova e fui selecionada para estudar em uma universidade japonesa como bolsista do governo japonês. Morei em Kobe por quatro anos e meio, concluí o doutorado e transferi-me para Tsukuba, Província de Ibaraki, para trabalhar como bióloga em uma instituição de pesquisa. Foi quando comecei a participar da Comunidade Católica de Tsuchiura. Até então, nunca havia tido a oportunidade de interagir com a comunidade brasileira no Japão.

Em todos esses anos de Japão, conhecendo estudantes estrangeiros e “dekasseguis”, percebi que a grande fonte de força e conforto de nós, migrantes, é a nossa família. Não me refiro à família no sentido de filiação apenas, mas a grande família de Deus, que nos faz a todos, irmãos dentro de Seu amor, independente de nossa nacionalidade, religião ou nível educacional. Em Kobe, tive a graça de ter uma família internacional, com irmãos judeus, muçulmanos, budistas, hindus, cristãos ortodoxos, cristãos protestantes, católicos e muitos ateus. Estávamos todos sós e longe de nossas casas e famílias, mas tínhamos uns aos outros para compartilhar as horas boas e ruins e ajudarmo-nos mutuamente. Esse sentimento de amor fraterno nos transformava numa verdadeira família e nos fortalecia em ânimo para seguirmos em frente em busca de nossos sonhos. Hoje, a maioria já voltou para seu país ou província de origem, mas o sentimento de “família” daquela época ainda continua vivo dentro de nós. Sei que esse sentimento fraterno que nos uniu um dia manterá os nossos corações interligados seja onde estivermos.

Nos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar um pequeno grupo de adolescentes brasileiros na Igreja de Tsuchiura. Essa minha vivência com eles e com a comunidade brasileira, mostrou-me um outro significado de “família” na vida do migrante. Quando via os pais chegarem à Igreja com os olhos fundos e fatigados pela longa jornada de trabalho, trazendo seus filhos para a catequese e Santa missa, percebia o quanto essas crianças e jovens eram amados. Muitos desses pais têm que se deslocar de outras cidades, e outros ainda viajam de ônibus para garantir que seus filhos convivam com a comunidade Cristã. Conversando com esses jovens, admirava-me com sua coragem, esforço, esperança, sonhos e amor pela vida e por Deus. Diante da triste realidade de outros jovens migrantes que perdem o rumo na vida e acabam se deixando levar pelo puro consumismo, pelo crime e pelas drogas, entendi que a grande diferença entre esses dois grupos de jovens está no relacionamento familiar e no ambiente em que vivem. A meu ver, as crianças e jovens que se sentem amados e respeitados e que têm espaço para expressar e compartilhar seus pensamentos e sentimentos tornam-se mais fortes, seguros, e também sensíveis e solidários com o seu próximo. Cabe a nós, adultos, garantir-lhes esse ambiente.

Cada encontro com os adolescentes brasileiros na Igreja de Tsuchiura ao longo desses quatro anos foi, para mim, uma alegre reunião com irmãozinhos e irmãzinhas, que mesmo sem saber, aliviaram-me de muitos momentos de solidão e dificuldade, com os seus sorrisos e carinho. A cada encontro, aprendi muito com a sabedoria e fé desses jovens que sempre me surpreendiam com comentários e perguntas de significado profundo e que me faziam repensar em certos valores da vida. Sou fã desses jovens e de seus pais, e também da comunidade católica brasileira de Kanto, cuja fé e amor cristão se revelam cada vez mais intensamente através da solidariedade, partilha e união no dia a dia, em vários eventos e através do Jornal Peregrinos. Como é bom saber que temos uns aos outros e que somos parte da grande família de Deus!

Cintia Niva
Comunidade Católica de Tsuchiura (2003-2008)
(artigo publicado na versão impressa do Jornal Peregrinos edição de junho 2008)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Feliz e Abençoado Ano Novo !

Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil

Estamos iniciando um Novo Ano com muita alegria, pois teremos uma comemoração muito especial para todos nós, que de alguma forma, estamos ligados à Imigração Japonesa ao Brasil. Este ano se completam 100 anos que o Navio KASATO MARU partiu do Porto de Kobe, transportando a primeira leva oficial de imigrantes para o Brasil.

A mensagem do Ano Novo - 2008, de D. Marcelino Tani Daiji, Bispo de Saitama, além de referir-se à Beatificação dos 188 Mártires do Japão, no dia 24 de novembro próximo, em Nagasaki, ressalta com alegria o acontecimento muito importante do Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil.

Recebendo na sua Diocese muitos descendentes de japoneses vindos de toda a América Latina, D. Tani tem demonstrado grande solicitude pastoral para com eles, e está empenhado para construir uma nova Igreja na cidade de Joso, Ibaraki-ken, onde vivem muitos Latinos. Já esteve três vezes no Brasil e visitou também vários países da América do Sul, para conhecer de perto seu povo e sua cultura. Ele acredita que a variedade cultural e a vivência cristã trazidas pelos descendentes vão enriquecer a Igreja no Japão.

Todos nós que temos a experiência de viver num País diferente de onde nascemos, sabemos como é a vida dos imigrantes num país de cultura, língua e costumes diferentes. Podemos imaginar, portanto, como foram as dificuldades e sofrimentos que os primeiros imigrantes japoneses experimentaram no Brasil, numa época em que não havia muitos recursos materiais nem assistência social, como hoje.Reconhecemos que herdamos seus sofrimentos e angústias. Mas também temos que reconhecer que recebemos as riquezas de duas culturas: do Japão e Reconhecemos que herdamos seus sofrimentos e angústias. Mas também temos que reconhecer que recebemos as riquezas de duas culturas: do Japão e do Brasil. E isso faz a diferença, pois percebemos o mundo de maneira diferente. Saber entender o mundo a partir dessa raíz dupla, nos possibilita contribuir à Igreja e à sociedade Japonesa com os valores que herdamos de nossos pais e avós – o espírito de luta, a honestidade, amor e diligência ao trabalho e valorização da vida familiar. Ao mesmo tempo, tendo recebido a influência positiva da cultura cristã no Brasil, a nossa contribuição será a de dar sentido e valorizar a vida, dando maior alegria e felicidade na convivência, superando as dificuldades com fé e confiança em Deus.

É hora de nos despertarmos para esta consciência, assumir com fé e coragem esta missão especial que temos, como Cristãos, neste País, pois o Apóstolo São Paulo nos diz: “... Já é hora de vocês acordarem: a nossa salvação está agora mais próxima do que quando começamos a acreditar.” (Rom. 13,11).

“... Testemunhamos o amor de Cristo que também experimentou a vida de imigrante, ao fugir para o Egito.” (Mt 2, 13-15).

Que neste Novo Ano, todos nós possamos dar um passo qualitativo, conscientes de que cada dia escrevemos uma parte da nossa história de "Comunidade Peregrina" para o Reino definitivo de Deus, que o Evangelho de Cristo nos propõe.

Ir. Teresa Mitsue Shirahama
Carmelitas da Caridade

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Mensagem de Natal de Dom Alessandro Ruffinoni para os migrantes do Japão


Caríssimos irmãos e irmãs migrantes.

Em ocasião das festas de Natal e de fim de ano quero, em nome da Igreja do Brasil, desejar a todos vocês um Feliz Natal e um ano novo cheio de paz, saúde e felicidade.
Sou Dom Alessandro Ruffinoni, bispo auxiliar de Porto Alegre, RS. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nomeou-me como bispo referencial da pastoral para os brasileiros no exterior. Estou substituindo a Dom Laurindo Guizzardi que muitos de vocês devem conhecer por sua presença e incentivo durante os 12 anos em que atuou em nome da CNBB.
Sinto-me orgulhoso e honrado por esta nomeação, porque permite-me de estar perto de vocês, tentando de ajudar naquilo que o migrante muitas vezes mais necessita: ser acompanhado na caminhada de sua fé. Este trabalho faz parte do carisma de minha Congregação Scalabriniana, que nasceu mesmo para acompanhar os migrantes que deixam a sua pátria buscando uma vida melhor. Junto comigo trabalha a irmã Maria do Carmo, também Scalabriniana, que me ajuda muito em acompanhar esta realidade em que se encontram tantos nossos migrantes brasileiros.
A Igreja do Brasil, como Mãe, não pode esquecer estes seus filhos e filhas, que, por vontade própria ou obrigados pelas dificuldades da vida, decidiram escolher o caminho da migração.
O nosso compromisso, como responsáveis da pastoral pelos migrantes, é sensibilizar Bispos, Sacerdotes, religiosos/as brasileiros para que dediquem um tempo aos nossos migrantes como missionários e missionárias. A Igreja de onde eles saíram não pode e não deve abandonar estes seus filhos como ovelhas sem pastor. E a Igreja de acolhida deve ser sensível em acolhê-los com amor e dignidade. Porque na Igreja ninguém é estrangeiro. Ela é mãe e como mãe ama a todos sem distinção. O nosso trabalho é também de falar com os Bispos que acolhem vocês para que destinem, onde é possível, um sacerdote do lugar; ou permitam que outros sacerdotes e missionários da mesma língua e do mesmo País dos migrantes venham para ajudar e colaborar.
É a Igreja, pela qual não existem barreiras, raças e nações, mas um único povo de Deus, que se preocupa com os seus filhos e filhas.
A todos vocês que, a partir de hoje, chamamos de irmãos e irmãs queremos desejar um feliz Natal. Espero, um pouco por vez, poder visitá-los e estreitar uma forte amizade. Estamos pensando, para o ano de 2008, enviar nas comunidades a imagem da Virgem Aparecida, começando nas Américas. Este vai ser o sinal de que a Igreja do Brasil está comprometida em acompanhar os migrantes e a dizer-lhes que os ama. Agradeço pela fé e o bem que estão espalhando pelo mundo inteiro.
Um forte abraço a todos e todas com a minha bênção.

Gravataí, Natal 2007

Dom Alessandro Ruffinoni, CS
(foto copiada da página da Prefeitura de Gravatai-RS)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Jornal Peregrinos - A importância das práticas católicas entre os brasileiros no Japão

A importância das práticas católicas entre os brasileiros no Japão

Olá amigos Peregrinos! Após um ano de ausência volto a contribuir para este importante veículo de esperança e fé entre os brasileiros no Japão. Por vários anos, juntamente com meu esposo Mário Henrique Ogasavara, participamos assiduamente das atividades da Igreja Católica de Tsuchiura (Ibaraki-ken). Sempre recordo-me das missas e encontros com muitas saudades e carinho. Durante oito anos residimos na cidade vizinha de Tsukuba como estudantes da Universidade de Tsukuba. No ano passado terminamos nossos estudos e mudamos para Cingapura onde trabalhamos como pesquisadores da Universidade Nacional da Cingapura.

Gostaria de relatar aqui um pouco da minha história e pesquisa no Japão. Minha área de pesquisa é antropologia e religião, sendo que o tema da minha pesquisa de doutorado foi sobre a importância e significado das atividades religiosas, principalmente dos católicos, entre os brasileiros no Japão. Para desenvolver minha pesquisa, visitei várias paróquias, participei de eventos, comemorações em diversas comunidades da Diocese de Saitama e entrevistei vários líderes e membros das comunidades locais.

Desta forma, fiquei familiarizada com as dificuldades e problemas cotidianos que os brasileiros enfrentam no Japão. Percebi que a igreja, para muitos, representa o local onde os brasileiros encontram conforto espiritual bem como um ambiente saudável de socialização, local para encontrar os amigos, conversar, relaxar e matar as saudades dos quitutes brasileiros que são servidos no “cafezinho após a missa” ou nas celebrações de datas importantes para os católicos, tais como a Ceia de Natal e as festas juninas. A igreja e os ensinamentos cristãos representam também um guia de orientação para muitas famílias com filhos que estão rapidamente aculturando ao estilo de vida no Japão e perdendo suas raízes.


Muitas famílias enfatizaram a importância da catequese na formação moral e espiritual de seus filhos, pois como sabemos, um número grande de brasileiros no Japão enfrenta problemas sérios com a educação e de relacionamento com seus filhos. Os jovens se tornam rebeldes, devido ao sistema educacional do Japão e a pressão no sentido de aculturação na sociedade japonesa. Desta forma, os jovens de forma geral estão perdendo o interesse pela língua portuguesa e a cultura brasileira, o que também dificulta a comunicação com os pais. Assim, muitos destes jovens perdem a noção de identidade e se tornam frustados diante da realidade das escolas japonesas, desistem de seus estudos, sonhos e perdem a esperaça em um futuro melhor. Assim, o contato com os ensinamentos e práticas católicas representa uma forma de resgate da identidade perdida e se torna um caminho de orientação moral e espiritual imprescindível para estes jovens.

Por outro lado, a igreja proporciona também o local de manifestação da identidade brasileira. As missas que são celebradas em português, os encontros semanais para os pais e pessoas envolvidas nas atividades da comunidade, constituem o elo de ligação entre o Brasil e a realidade dos trabalhadores no Japão. Muitos enfrentam horas estressantes de trabalho árduo sem pausa para descanso. O espaço da igreja oferece, então, um local de refúgio e descontração. Muitas pessoas relataram que se sentem como se estivessem em “casa” desfrutando da companhia de seus familiares e amigos. Este sentimento de “sentir-se em casa mesmo fora de casa”, no Japão, renova as energias e a esperança em um futuro melhor. Agradeço a todos da comunidade da Diocese de Saitama que colaboraram com esta pesquisa. Obrigada!
Regina Yoshie Matsue

(artigo do Jornal Peregrinos edição de novembro 2007)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Cartilha do migrante

CARTILHA: "BRASILEIROS NO EXTERIOR - INFORMAÇÕES ÚTEIS"
Vocês sabiam que o Governo Brasileiro tinha uma cartilha para os migrantes? Pois é, agora, o Governo está pedindo a nossa colaboração para melhorá-la e atualizá-la.

A nossa experiência aqui no Japão pode ajudar outros compatriotas que queiram migrar como nós. Vamos ajudar o Brasil a fazer uma cartilha com informações realmente úteis e dentro da realidade dos migrantes. Veja mais detalhes no nosso outro blog http://pereglinker.blogspot.com/ e na página do Ministério do Trabalho http://www.mte.gov.br/trab_estrang/consulta_publica.asp

O prazo foi prorrogado para 31 de julho!

Mapa de acesso - Igreja Católica de Tsuchiura

Mapa de acesso - Igreja Católica de Tsuchiura